terça-feira, 5 de abril de 2011

O Matador

"Piadas de preto, de português, de japonês. Eu odeio piadas. Não gosto que me contem, não rio, não acho graça. Com a piada do macaco, que me foi contada aos cinco anos, por um tio italiano, aconteceu o inverso. Fixei-me nela.
A estrada é de terra, deserta. O homem solitário desce de carro para a simples operação da troca de pneu e constata que está sem o macaco. Um ponto de luz no topo da montanha dá-lhe esperança, há homem ali, há macaco. O homem caminha em direção à luz. Certamente aquele ermitão tem um macaco. Emprestará ? Claro que sim. O macaco pode estar quebrado. Não estará quebrado. Alguém pode tê-lo roubado. Ninguém o roubou, mas o ermitão poderá simplesmente não emprestá-lo. Claro que não emprestará, é um veado o ermitão. Não emprestará de forma alguma. Aquele idiota não vai emprestar o macaco. Não vai mesmo, aquele imbecil quer que o mundo se foda. Pensamentos ruins vão se formando na mente do homem solitário, enquanto seu fígado é estragado pelas enzimas do ódio. Ele nem percebe que caminhou oito quilômetros. Pára em frente ao casebre. Bate na porta. Um senhor vem abri-la, sorri gentilmente, pois não, ele diz. Enfia o macaco no cu ! "


Trecho do capítulo 2 de O MATADOR.
Autoria de Patrícia Melo ( maravilhosa )